domingo, 22 de maio de 2011

SACUDI A POEIRA DA MEMÓRIA E SALTARAM AS RECORDAÇÕES….








Parque Mayer: história dos 90 anos da Broadway portuguesa*







Criado no início dos «loucos anos 20» com a ambição de ser um pólo teatral, o Parque Mayer impôs-se como centro do teatro de revista e feira popular moderna, sobreviveu à censura de Salazar e Caetano, à rádio e ao cinema, ao futebol, à partidarite da revolução, à televisão e às telenovelas. É um «sempre-em-pé», embora tenha atravessado várias crises. Fixou-se no imaginário nacional como a «catedral da revista», uma Broadway à portuguesa. A suposta decadência não evitou a gula disfarçada de propostas de remodelação urbanística, em crescendo desde finais dos anos 60. Uma boa ocasião para revisitar este palco maior, os seus fazedores, os seus espectáculos, o seu público, as propostas de remodelação.









Origens

Em 1920, por ocasião duma partilha familiar, o Palácio Mayer foi comprado por Artur Brandão, juntamente com os seus anexos e parque. Este, por sua vez, vendeu-o a Luís Galhardo, tendo-se então constituído a sociedade Avenida Parque Lda. (28/V e 30/XI/1921). Galhardo, figura consagrada do meio teatral, estava interessado em criar um novo local de espectáculos. Àquele associou-se um conjunto de homens de negócios. Para tal constituiu-se a Sociedade Avenida Parque (11/II/1922 e 19/VII/1924), com 10 sócios, destacando-se Elias Azacot, Carlos Borges, Hipácio de Brion e Alberto Pinto Gouveia. Este último iniciaria em 1928 uma liderança familiar (embora partilhada), que prosseguiria com o seu filho Campos Figueira, o seu neto homónimo e o seu bisneto Artur Gouveia (actual responsável da sociedade sucessora, a Avenida Parque, SA).
Este espaço já detinha uma aura lúdica e boémia, pois alojara o Club Mayer, um clube nocturno de recreio e jogo, durante 1918-1920. No entanto, a nova sociedade concentrou-se no Parque Mayer, tendo vendido o palacete, que se tornou no Consulado Geral de Espanha, em 1930.
O Parque Mayer foi inaugurado em 15/VI/1922, substituindo e incorporando a função lúdica da Feira de Agosto (criada em 1908, na Rotunda), uma das últimas «feiras típicas» da capital, com petiscos, comércio e diversões. Inicialmente apresentou-se em instalações precárias de madeira («barracas»), mas situava-se numa zona mais central e frequentada [1]. Nos primeiros anos o recinto designou-se por Avenida Parque, mas o nome antigo acabaria por impor-se correntemente. Com o tempo transformar-se-ia num moderno e popular recinto de diversões ao ar livre, pretendendo emular o que se fazia em Paris (Luna-Park, Magic-City), Madrid (Retiro), Barcelona (Grande Parque), Sevilha, etc. (cf. O Notícias Ilustrado, 5/VIII/1928 e 13/IV/1930, respectivamente p. 19 e 10/11). Mais tarde esta componente seria ampliada e aperfeiçoada pela Feira Popular de Lisboa (1943). Entre as diversões que passaram no Parque Mayer destacam-se as «barracas de tiros», os bailes (de fim-de-semana, ou do Carnaval), os circos Royal, El Dorado e Luftman, as «barracas» do «Pôrto em Lisboa» (miniatura animada da Ribeira) ou de «fenómenos» como a «mulher transparente» e a «mulher-sereia» e as pulgas amestradas, o labirinto e a roleta diabólica, a laranjinha, as «variedades», o jogo do quino, o jogo clandestino (para os mais aventureiros), os carrosséis e os fantoches, o Pavilhão Infantil, os «carrinhos de choque», a patinagem, os combates de boxe, a luta greco-romana e a luta livre [2].









Capacidade de atracção

O Avenida Parque conseguiu impor-se não só como espaço de diversão mas também de convívio– este derivado da profusão de estabelecimentos para todos os gostos que o marcariam desde o início, desde cafés, retiros, tasquinhas, casas de pasto e de fados, restaurantes, bares, dancings, cabarets, etc.. Tal combinação concederia a este espaço uma redobrada capacidade de atracção. Além disso, demonstrou um grande dinamismo inicial, ao diversificar e renovar o tipo de espectáculos oferecidos. Por lá passou o jazz, com as troupes e as jazz-bands. Por lá ecoou a música ligeira, por iniciativa dos seus restaurantes e/ou cabarets e/ou dancings. Por lá se cantou o fado, no retiro de e com Armandinho e Georgino de Sousa, acompanhando à guitarra e viola (respectivamente) o «fabuloso» Alfredo Marceneiro e revelando Maria Emília Alta, além de Joaquim Campos e Júlio Proença (ambos no Colete Encarnado) e Mariema (no Dominó). Nele granjeou grande popularidade a actuação regular da fadista Hermínia Silva na revista (tendo cantado ainda na Esplanada Egípcia e no Valente das Farturas). Também Amália Rodrigues aí conheceu o maestro Frederico Valério, na revista «Essa é que é essa» (Teatro Maria Vitória, 1942), o qual lhe escreveria o «Fado do ciúme» e «Sabe-se lá», marcando-lhe assim a carreira. Por lá se vibrou com noites de samba, no restaurante-bar Dominó (de Maria Luísa Barbosa e do músico brasileiro Nestor Campos), onde Nicolau Breyner cantou «Como é bom amar em Itapoan» e Raul Solnado contou anedotas. Lá foram inventadas as «marchas populares», uma década após a sua abertura, segundo uma ideia de Leitão de Barros para animar o recinto e que tiveram um êxito fulgurante, tendo sido repetidas uma quinzena depois [3]. Lá foi recriado o antigo carnaval luso, com «danças de luta» e «cegadas» (cf. O Notícias Ilustrado, 19/III/1933, p. 9). Por fim, e acima de tudo, por lá passou e continua a passar o teatro, a grande singularidade do Parque Mayer relativamente às «feiras populares» convencionais.










Os teatros

Assim, uma quinzena após a abertura ao público do Parque Mayer, foi inaugurado o Teatro Maria Vitória, com a revista «Lua nova». Consumido por um incêndio em 10/V/1986, seria reconstruído, tendo reaberto com uma nova revista a 2/II/1990. Seguiu-se-lhe o Teatro Variedades, estreado com a revista «Pó de arroz», em 8/VII/1926. Este fora idealizado por Galhardo já em 1922 e começou a ser construído em 1924, com risco de Urbano de Castro, sob o antigo lago dos Jardins Mayer. Pouco depois, foi a vez do Capitólio, inaugurado em 31/VII/1931, da autoria do arquitecto Luís Cristino da Silva, o mesmo que desenharia o pórtico de entrada. Este recinto modernista, sucessor da Esplanada Egípcia e inicialmente utilizado como salão de música e «variedades», exibiu cinema e teatro, à maneira dos coevos «cine-teatros». Foi classificado como «imóvel de interesse público» pelo decreto-lei n.º 8/83 (de 24/I/1983). Em 1937 surgiu o Teatro Recreio, com a revista «Faça sol». Esta casa de espectáculos, criada por Giuseppe Bastos e vizinha do restaurante Gato Preto, foi extinta em 1940, para dar lugar a um rinque de boxe. O Teatro ABC foi o último recinto a ser franqueado, em 1955, com a revista «Haja saúde». No seu terreno precedera-o uma série de restaurantes-bares e/ou casas de espectáculo: Alhambra, Galo de Ouro, Baía e Casablanca. Encerrou em 1995. Pontualmente, serviram de palco teatral o Pavilhão Variedades (revista «Amor perfeito», em 1924) e a Esplanada Egípcia (por exemplo com a revista «Off-side», em 1929) [4].









A «catedral da revista»

Para se tornar o centro da «revista à portuguesa» o Parque Mayer teve que concentrar-se quase exclusivamente neste género teatral. Não obstante, também nele se exibiram operetas, comédias e cinema. Acolheu ainda a Companhia Amélia Rey Colaço, após o incêndio no Teatro Nacional D. Maria II. Além de ter sobrevivido ao cinema que inundava a baixa lisboeta nos anos 30-70, conseguiu mesmo absorvê-lo, tendo o Capitólio imperado no circuito dos filmes pornográficos no pós-revolução (aí pôde ser visto o célebre Garganta funda, por exemplo). Como recorda Negrão, também o saudoso Pavilhão Português exibira muitas fitas velhas, “a preços baratos, em noites cálidas de Verão” (cf. op. cit., p. 12)
O título de «catedral da revista» foi uma conquista progressiva. Na década inicial, o Parque Mayer abarcou menos de 1/5 das revistas produzidas no país (contabilizando a partir de 1922). Nas décadas seguintes foi paulatinamente consolidando a sua influência até atingir uma supremacia absoluta: 41% nos anos 30, quase 50% nos anos 40, cerca de 62% nos anos 50 e cerca de 85% nos anos 60. Esta ascensão foi conseguida sobretudo à custa da redução gradual do número total de revistas produzidas, inversão essa registada durante o período da II Guerra Mundial (107, 156, 79, 71 e 66 peças, respectivamente anos 20 a 60). Depois da revolução o Parque Mayer perdeu o gás: 61% das revistas nos anos 70, cerca de 36% nos anos 80 e cerca de 29% nos anos 90. Nos últimos anos, desde 1994, ensaiou uma tímida recuperação. Por exemplo, na década actual cabem-lhe mais de metade das revistas (embora estejamos perante números baixos: 4 em 7). O Parque Mayer foi responsável por 304 das 651 revistas produzidas entre 1922 e 2002, ou seja quase metade do total (cerca de 47%) [5]. Daí que o seu contributo para a revista, e para o teatro em geral, seja relevante.
A menor quantidade de revistas em palco desde 1994/95 (abaixo da meia dúzia) não significa apenas uma redução da oferta, mas também que, na actualidade, cada espectáculo tem que estar mais tempo em cartaz. Estamos longe dos tempos em que as peças surgiam em catadupa, como nos anos 40 no Maria Vitória ou nos anos 60 no ABC (com 29 e 25 revistas, respectivamente). Estamos ainda mais distantes da época em que uma peça durou apenas uma semana no Maria Vitória (anos 30), como relata Negrão (op. cit., p. 76). O mesmo autor afiança ainda que a partir dos anos 70 cada revista passou a ter uma carreira mínima de 3 meses (cf. ibidem).











* Este texto, da autoria do Dr. Daniel Melo, (historiador, investigador associado sénior do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa; daniel.melo@ics.ul.pt), foi originalmente publicado na revista História, Lisboa, História – Publicações e Conteúdos Multimédia, ano XXV, III série, n.º 54, Março de 2003, p. 44-50. Não foi actualizado desde essa data, dai se manter a referência aos 80 anos no título
[1] Para este historial cf. Norberto Araújo, Peregrinações em Lisboa, Lisboa, Parceria António Maria Pereira , [1939], vol. XIV, p. 33-39, e Mário Costa, Feiras e divertimentos populares de Lisboa, Lisboa, [Oficinas Gráficas da CML], 1950, p. 237-241.
[2] Cf. Albano Zink Negrão, O Parque Mayer, sem local de edição, [Tip. Anuário Comercial de Portugal], depósito legal 1972; Diário de Lisboa, 13/VI/1922, p. 2; Carlos Queirós, “Uma noite no Parque Mayer”, Ilustração, 15/IX/1931, p. 33-35; Diário de Notícias, 11/III/1943, p. 4; Luiz Pacheco, “Esse fantástico Parque Mayer”, Diário Popular?, [198?].
[3] A este propósito veja-se Daniel Melo , Salazarismo e cultura popular (1933-1958), Lisboa, Imprensa de Ciências Sociais, 2001.


Fotos da Net
GOLDFINGER

3 comentários:

São disse...

Lembro-me de ir ao Parque Mayer e tenho pena que esteja no lastimável estado em que está.

De revista, sinceramente, nunca gostei muito. Mas gosto imenso de te ver por aqui, rrss

Um bom domnigo para vós.

elvira carvalho disse...

Nunca fui ao Parque Mayer. Aliás a bem da verdade só frequentei o Coliseu e o Monumental, entre 64 e 68. E isto porque trabalhava num Laboratório em Lisboa que tinha por hábito 2 vezes por mês dar aos seus funcionários bilhetes para esses espaços.
Gosto de o ver por aqui ainda que preferisse um texto seu, mas enfim se aparece é porque está bem.
Abraço para si e para a D. Lidia.

Filoxera disse...

Bela homenagem...
Beijinhos.