quinta-feira, 26 de março de 2009

FALANDO DE MULHERES – PARTE III


José Manuel de Pinho Sousa Coelho, Procurador-geral adjunto, inspector do Ministério Público, 54 anos


Acho que havia, antes da entrada das mulheres na magistratura, quase uma ideia – socialmente aceite – de que teria de ser um homem a exercer a função simbólica de administração de justiça, como factor imprescindível para a afirmação e credibilização dos tribunais. Era uma razão cultural, fruto do atraso português, ou até de tradição latina. Hoje, acho que a mulher se desforrou, invadiu literalmente a magistratura, com uma crescente prevalência quantitativa, na 1.ª instância, até porque a mulher tem preenchido mais de 80 por cento das vagas abertas, nos últimos anos, no Centro de Estudos Judiciários. Só no Ministério Público, em 900 procuradores adjuntos, mais de 60 por cento são mulheres. Não notei qualquer diferença especial na abordagem e resolução das questões jurídicas e litígios. Mas claro que sinto que, por terem uma especial sensibilidade natural, há áreas onde se sentem mais vocacionadas, tal como a área da família e, sobretudo, a área dos menores. As magistradas, não tendo a limitação pontual da maternidade, não são menos produtivas que os homens, até porque têm mais método diário, na decomposição das tarefas, conseguindo-se disciplinar mais. Noto-lhes, até, mais persistência. Em julgamento, noto uma menor tolerância, e um maior rigor formal, na condução dos trabalhos. Como balanço, a justiça ganhou com a feminização da judicatura.


Rui Zink, escritor, 47 anos


Quando cheguei ao negócio da escrita, inícios de 80, já um ror de escritoras fazia parte da mobília, para não dizer do cânone, esse padrão dos descobrimentos em formato falo. Já ninguém tinha medo de Virgínia Woolf, Florbela Espanca, George Sand, Mary Shelley, Yourcenar, Sophia, Lispector, Duras. Talvez das três Marias, Teresa Horta, Isabel Barreno, Velho da Costa. Yvette Centeno e Ana Hatherly perturbavam um bocadinho porque eram de outro planeta, luminosas. E na universidade falava-se da Llansol. As mulheres eram uma minoria, talvez, mas uma senhora minoria. E os editores ainda usavam barba e cachimbo, mas em Frankfurt habituei-me a ver esses pobres dinossauros serem ultrapassados na fila, à má fila, por “mulherzinhas” com ar dócil, mas que lhes comiam as papas na cabeça. Hoje, agentes e editores são quase sempre mulheres, e está muito bem: negociadoras implacáveis. E ágeis. O lado mau deste reviralho é que o mundo editorial perdeu muita da sua lentidão. E há as tias, claro. Não lhes admiro a escrita, mas acho graça ao cocktail de candura, determinação e oportunismo. Mas talvez nenhuma escritora seja tão feminina como Agustina quando conta a saga de Quina, a sibila. Flaubert disse “Madame Bovary c’est moi”, mas referia-se ao livro em geral. Em 1956, já Agustina, a lida, sabe que é também Quina, a rural. Chama-se a isso arte.



Carlos Moreira da Silva, Chairman da BA Vidro, 56 anos


Quando iniciei a carreira, há 30 anos, o papel das mulheres nas empresas era muito diferente. Trabalhavam na administração pública, em funções técnicas, com uma progressão muito mais limitada. Muito mudou no perfil da mulher, enquanto profissional, deste então. Primeiro, mudou a própria atitude das mulheres – ganharam outras prioridades para além da maternidade e da família, formaram-se nas universidades e passaram a querer mais. Não são nem mais, nem menos inteligentes. São, sim, mais ambiciosas. E, depois, mudou o sistema em que estavam inseridas – há mais soluções para se libertarem da educação e do acompanhamento dos filhos, partilha-se mais em casa e, por isso, sobra mais tempo para a ambição. Não gosto de estigmas, mas, de uma forma quase caricatural, diria que há alguns traços femininos mais característicos, no ambiente empresa. Têm a capacidade de desconstruir problemas, são mais tranquilas e jogam, regra geral, de forma mais inteligente. Têm, no entanto, menos capacidade para aceitar pontos de vista diferentes quando tomam decisões e têm menos jogo de cintura. Acredito que vão, naturalmente, ocupar a maioria dos cargos de chefia no futuro, leia-se, daqui a duas ou três gerações. Acima de tudo, porque são mais trabalhadoras do que os homens.





Miguel Portas, eurodeputado do Bloco de Esquerda, 50 anos


O poder no espaço público é um domínio do masculino. Este dado perverte a ocupação desse espaço público pelas mulheres e determina o facto de ainda termos de criar leis da paridade. Por isso, para lá da clivagem esquerda-direita, há clivagens no olhar que não se esgotam na relação política. Há homens e mulheres de esquerda e de direita, mas que tendem a não ser uma coisa ou outra da mesma maneira. E isso não é tanto uma consequência de se ser homem ou mulher, mas de se ser homem ou mulher numa sociedade onde o poder no espaço público é masculino. Já o poder no espaço privado é hegemonizado pelas mulheres. O que caracteriza as sociedades mediterrânicas não é, em abstracto, a diminuição do papel da mulher, mas a repartição de papéis. O homem ainda não partilha as responsabilidades no espaço doméstico. No espaço público passa-se o mesmo ao contrário. São duas desigualdades. A emancipação da mulher tem a ver com a igualdade no espaço público, mas também com a necessidade de os homens, no privado, se regerem por relações de partilha e não de falta de comparência. Claro que as alterações nas últimas décadas são muito substantivas. Basta ver a série Conta-me Como Foi, um excelente retrato da época, para se perceber que aqueles tempos ainda existem em Portugal. Em simultâneo, existem hoje outros tempos, mais actuais.



António Veloso, professor de Biomecânica da Faculdade de Motricidade Humana, Univ. Lisboa, 46 anos


As mulheres têm piores resultados do que os homens na generalidade dos desportos. Por um lado, porque beneficiam de menor investimento e menos oportunidades de prática. Por outro lado, há características fisiológicas e anatómicas associadas ao género que conduzem à diferença de resultados. Uma delas é o facto de os homens terem mais massa e potência muscular. Nos desportos em que a potência muscular é fundamental não é possível às mulheres recuperarem a diferença, como é o caso das provas de natação, velocidade ou saltos no atletismo. Também nas modalidades em que a altura é importante, como basquetebol, andebol e voleibol, é impossível haver equilíbrio. Mas há casos em que as mulheres são melhores, como na ginástica rítmica, em que a flexibilidade é determinante – se os homens competissem, perderiam. E no hipismo, as mulheres ganham regularmente na categoria de ensino. O ténis é um caso curioso, em que as mulheres suscitam tanto interesse como os homens e os prémios nos Grand Slam são iguais. Quando as mulheres atingirem o nível de prática dos homens em modalidades em que a precisão seja o mais relevante é provável que façam resultados semelhantes. É o caso do tiro e do tiro com arco, em que as diferenças já são reduzidas. Só que, fora os países ocidentais, há milhões de mulheres sem prática desportiva de bom nível.

Depoimentos recolhidos por Andrea Cunha Freitas, Andreia Sanches, Graça Barbosa Ribeiro, Hugo Daniel Sousa, Isabel Coutinho, Luis Miguel Queirós, Natália Faria, Paula Torres de Carvalho e Raquel Almeida Correia

Sofia Branco

Publico

Fotos da Net

GOLDFINGER



2 comentários:

São disse...

Que tudo corra bem a teu sobrinho!

Uma feliz semana, meu bem.

FERNANDA & POEMAS disse...

QUERIDO GOLD, ADOREI O TEXTO...ADOREI LER-TE AMIGO...
ABRAÇOS DE MUITO CARINHO,
FERNANDINHA