quinta-feira, 30 de julho de 2009

RADIOGRAFIA DE UM GOLPE DE CHARME – PARTE X






Marcelino, que ouviu tudo isto, compreendeu subitamente o que acontecera, e que mais tarde lhe foi confirmado por várias fontes fidedignas: quando o ministro da Guerra, Gomes de Araújo, foi informado do que se passava, perguntou quem era o comandante do aviáo desviado. Ao saber, cedendo a um desejo de vingança antigo, deu ordem para abater o avião.

Mal pensara isto, Marcelino vislumbrou os dois pares de aviões caças que tinham saído da base de Sáo Jacinto, com a missão de abater o Super-Constellation. Para não ser detectado pêlos radares e ficar fora do alcance dos caças, o comandante baixou a altitude até escassos 30 metros por cima dos prédios.

Os piratas rejubilaram. Feita a despressurizaçáo, começou o lançamento dos comunicados, com a ajuda mais que solícita do mecânico Coragem, que a certa altura disse mesmo: "Dê cá, que eu também quero lançar alguns!" Aliás, as próprias hospedeiras acabaram por ajudar no lançamento dos papéis, bem como alguns passageiros, já francamente bêbados, acreditando que estavam a deitar fora alguma papelada que já não era necessária.

Com as mudanças bruscas de altitude, João Martins sentiu-se mal e foi à casa de banho vomitar. Pouco depois, Maria Luísa saía de lá aos gritos: "Quem foi o porco que sujou a sanita? Vá lá limpar imediatamente!" E o bom Martins lá foi, guardanapo numa mão, pistola na outra.

Estava um dia luminoso em Lisboa, cheio de sol e vento, e os panfletos voaram por todo o lado, espalharam-se pela Avenida da Liberdade, pousaram nos cafés do Terreiro do Paço, entraram pelas janelas abertas do Ministério do Interior.

"Agora, vamos ali à malta fixe do Barreiro", ordenou Palma Inácio. "Agora vamos à malta fixe de Beja". Voaram, "a rapar o solo" sobre o Alentejo e o Algarve. Martins, ao ver a sua terra-natal, chorou. E continuaram para Sul. No mar, ao largo de Faro, estavam dois navios de guerra que tomaram posições, alinhados com o avião.

Marcelino convenceu-se de que era o alvo e desceu ainda mais, passando rente ao mar entre as duas corvetas. Para seu espanto, os militares a bordo disseram adeus, sorridentes. Estavam ali, confirmou-se mais tarde, à espera da operação marítima de Henrique Galvão...



A chegada a Tânger registou-se precisamente ao meio-dia menos 10, como previsto. Galváo esperava os seus homens no aeroporto, as autoridades estavam avisadas.

O avião regressou horas depois a Lisboa e os operacionais foram todos presos. Após algumas andanças pouco agradáveis em Marrocos foram mandados para Dacar, precisamente no dia da declaração da independência do Senegal. Galváo, apresentado como um famoso anti-fascista e anti-colonialista português, ainda fez um discurso às massas, antes de as autoridades senegalesas terem enfiado o grupo à força num avião com destino à Argentina. A entrada, Camilo pôs-se aos gritos de que, mal levantassem voo, desviaria o avião. O comandante mandou dizer que não transportava tão difíceis passageiros, e, pouco depois, estavam de regresso ao Brasil, prontos para outra operação, Em Portugal, foram todos julgados à revelia e condenados a penas entre os 15 e 20 anos, ajuntar às que já tinham O comandante Marcelino, que não foi capaz de explicar satisfatoriamente por que razão tinha alterado o voo de Casablanca, foi interrogado inúmeras vezes pela Pide e ficou suspenso das suas funções.

Um mês depois, recebe um telefonema do aeroporto, às 2h00 da manhã. "Comandante Marcelino, tem um voo para fazer agora, para Goa", disseram. Acrescentaram que a ordem de suspensão tinha acabado de ser levantada e Marcelino foi à pressa para o aeroporto. De tão radiante por recomeçar a trabalhar, nem estranhou que o voo, àquela hora, fosse repleto de passageiros e com a carga máxima.

Já nas proximidades da Índia, foi um controlador aéreo paquistanês quem o informou: "O quê? Vai para Goa? Você está louco? Goa acaba de ser tomada pelo Nehru. Já chegaram aqui, ao aeroporto de Carachi, dois aviões crivados de balas." Marcelino começou, com todas as cautelas, a explicar aos passageiros por que razão teriam de aterrar em Carachi... mas um deles dirigiuse ao cockpit: "Sr. comandante, não perca o seu tempo. Sabemos o que se passa. Somos todos militares à civil, o avião vai carregado de armamento".

Sabendo da iminente invasão de Goa, o Governo português decidira enviar, à última hora, soldados e armas para defender a colónia. E quem melhor para pilotar o avião-suicida, pensou o ministro da Guerra, do que o comandante Marcelino? Hoje, é casado com Maria Luísa, tem três netos.



Artigo publicado na PÚBLICA de 28 de Outubro de 2001/Público

Paulo Moura

Foto da Net

GOLDFINGER

FIM



4 comentários:

Isamar disse...

Um artigo muito importante sobretudo para os mais jovens que não conheceram quão duro foi o regime que nos governou durante quarenta e oito anos e que nós conhecemos uma boa parte.Este homem foi um lutador que pagou caro o seu sonho. Infelizmente, a vida não é só feita de coisas boas mas esta tendência que os homens têm de coarctar a liberdade aos outros homens tem de ser combatida com tenacidade.

Beijinhos

Bem-hajas!

Anónimo disse...

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Anónimo disse...

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